Complexo de Manson de Edson Ecks
Ciensofia ll, Edson Ecks, Amazon ebook, 2019, página 79
A Terceirização da Violência
Ecks: Acredito que o que testemunhei no mercadinho durante o dia da eleição revela um fenômeno que chamo de Complexo de Manson, onde a violência, o ódio e o desejo de aniquilação são terceirizados. Assim como Charles Manson, que se orgulhava de nunca ter ele próprio matado, mas orquestrava a morte por meio de seus seguidores, essas pessoas—a "senhora de Deus" e o "caixa"—desejam que a violência extrema, como a pena de morte e a tortura, seja executada, desde que não sejam suas próprias mãos a se sujarem de sangue.
O crucial é a transferência da responsabilidade e da culpa. Eles se intitulam "bons cristãos" e "cidadãos de bem", defendem o mandamento de "Não Matarás", mas apoiam ativamente políticas que ordenam o matar. Eles delegam esse ato fatal ao Estado (representado pelo carrasco Vlad), que executa a violência por procuração. Isso lhes permite sentir a satisfação sádica da morte e da punição, sem o remorso ou a culpa de serem assassinos diretos. É um assassinato em série mental, onde a mente ordena e o executor oficial cumpre.
Carl Jung: A Projeção da Sombra
Jung: A sua observação, Sr. Ecks, sobre o paradoxo entre a conduta professada ("Deus é amor") e a agressividade delegada é profundamente instigante. No entanto, eu tenderia a analisar este comportamento através da lente da Sombra e da Persona.
A Persona é a máscara social que o indivíduo adota—a "senhorazinha mansa, pacata, que vai para a Igreja". É o papel que a sociedade e o próprio ego consideram aceitável. Contudo, a Sombra é o lado obscuro da personalidade, o repositório de todos os traços, impulsos e desejos que o ego rejeitou como incompatíveis com sua Persona idealizada. A senhora e o caixa reprimiram, em seu inconsciente pessoal, seus impulsos primários de agressão e sadismo.
O que ocorre no contexto eleitoral é uma projeção massiva da Sombra. Como o indivíduo não pode admitir o desejo de matar ou torturar em si mesmo—pois isso destruiria sua Persona de "bom cristão"—ele projeta essa Sombra em um líder político ou em uma ideologia que advoga por esses atos. A agressão, ao ser delegada a uma figura de autoridade ou ao Estado, não é mais vista como própria, mas como um "mal necessário" ou uma "justiça" que vem de fora. O brilho nos olhos de satisfação que o senhor descreveu após a execução de Vlad é a Sombra reprimida encontrando uma satisfação indireta e isenta de culpa através da ação de terceiros.
Ecks: A Escolha Consciente da Inocência
Ecks: O que o senhor descreve, Dr. Jung, sobre a Sombra é fundamental. Mas vejo algo mais ativo e menos meramente projetivo. Há uma escolha consciente no processo de terceirização. A Sombra não está apenas se projetando; ela está sendo licenciada e legalizada.
No caso de Manson, ele manipulava psicologicamente para que seus seguidores, que já tinham fissuras em suas Personas, executassem o que ele, o "assassino mental", desejava. No caso da política, a "senhora" e o "caixa" encontram um terreno fértil e seguro para liberar seu ódio. Eles poderiam escolher um líder ou uma ideologia que promovesse o perdão ou a reabilitação, mas escolhem ativamente a ideologia que lhes permite dizer: "Sim, matem, mas não por minha causa direta, e sim em nome da Lei e da Ordem."
A recusa em "sujar as mãos" não é apenas medo da punição, é o desejo de manter a aparência de pureza enquanto se satisfaz o desejo de violência. É a hipocrisia elevada à estratégia de sobrevivência moral. A Persona é preservada, não por uma repressão inconsciente da Sombra, mas por uma manobra consciente de desresponsabilização moral.
Jung: O Inconsciente Coletivo e a Arqueologia da Crueldade
Jung: O ponto sobre a escolha consciente e a "estratégia de sobrevivência moral" é bem colocado, Sr. Ecks. Contudo, o que torna essa estratégia tão eficaz e tão difundida deve residir em algo mais profundo do que a moral individual: o Inconsciente Coletivo.
Os desejos de punição extrema, o impulso de sacrificar o "outro" em nome da coesão do grupo ou da ordem moral, não são apenas Sombra individual; eles são ressonâncias de Arquétipos atemporais. O Arquétipo do Carrasco (Vlad) e o da Justiça Severa (o Estado) despertam a satisfação primitiva que remonta a tempos onde a vingança e o sacrifício eram rituais sociais.
O "Complexo de Manson", como o senhor o chama, pode ser visto como a manifestação moderna da necessidade arcaica de externalizar a agressão. A senhora e o caixa não estão apenas terceirizando a violência para Manson ou um político; eles estão se conectando a um padrão ancestral de crueldade que reside no inconsciente de toda a humanidade. A Persona deles se sente segura, pois eles estão agindo em nome do que parece ser uma força maior — seja a religião, a lei ou a ordem divina — que está acima de sua responsabilidade pessoal. Eles não são apenas manipulados; eles participam voluntariamente de um drama arquetípico de julgamento e punição.
Edson Ecks: Admito que acho poética sua visão metafísica do Complexo de Manson, mas a minha visão é mais 'nua e crua'.
O debate entre Ecks e Jung ilumina duas dimensões do mesmo fenômeno:
Edson Ecks foca na ação e estratégia da violência delegada, cunhando o "Complexo de Manson" como um mecanismo consciente e sociopolítico de desresponsabilização para a satisfação do desejo violento, preservando a Persona de "cidadão de bem".
Carl Jung aprofunda a raiz psicológica e arquetípica, explicando a delegação como uma projeção da Sombra e uma conexão com o Inconsciente Coletivo, onde a crueldade encontra satisfação através de arquétipos de justiça e punição, mantendo a integridade da Persona individual.
Ciensofia, doisa mil e dezenove, Amazon e-book, Edson Ecks


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