Tonha , Mapinguari e Yara - Parte lll

 O Mapinguari é uma criatura lendária da floresta amazônica, descrita como um gigante coberto de pelos, com um olho só e uma boca no lugar do umbigo. A lenda conta que o Mapinguari é faminto e vaga pela mata em busca de animais e pessoas para devorar.





Prelúdio 


Então , houve uma reunião à noite anterior para definir como seria as formas de atacar e matar Mapinguari, o monstro devorador .


Estando todos reunidos na maloca do pagé Rudá, começa a reunião .


"Meu amado povo , eis que o perigo e o terror veio nos visitar  novamente, o monstro Mapinguari, depois de cinquenta anos voltou para nos atacar , nos tirar o que mais temos de valor : as pessoas que amamos .


A cinquenta anos atrás ele levou meu amado irmão , o cacique  Ubiratã , e hoje temos aqui grandes guerreiros , e entre eles ,  alguns são seus netos .  

Netos e filhos nossos se misturam num único intuito , trazer paz para o espírito de meu irmão que está dentro do Mapinguari, quando o matarmos liberaremos as almas daqueles que ele devorou .

Três crianças sumiram esse mês que está acabando , três crianças da nossa família , mas como dizem : 'Tudo que começa tem um fim , e o fim do Mapinguari lhe bate à porta , assim que ele vir bate a nossa porta"


Disse o pagé Rudá.





Essas palavras do pagé Rudá iluminou as almas dos guerreiros da tribo Ventos do Norte, Tonha observava tudo , esperando seu momento de falar . Então , o guerreiro Thauan, filho do pagé Rudá, se levanta , pois todos estavam  sentados no chão de barro da maloca, com suas pernas cruzadas .


"Nos guerreiros, o deus Tupã nos trouxe a Guerreira da Espada de Luz , assim como está escrito em nossa sagrada Escritura   aqui está confirmado a profecia que dizia que na segunda vinda de Mapinguari , a guerreira da espada de luz apareceria , e através dela seríamos libertados de tamanho sofrimento" disse Tauan.

Tonha fica numa situação que lhe falta as palavras , tudo aquilo era novo para ela , agora ela, era uma guerreira de profecia , Que iria  libertar um povo , mas para ela, ela era apenas uma jovem mulher que veio atrás da Cidade de ouro, para ajudar sua família e a região onde vive .




Tauan fala , girando e olhando para todos que estavam ali, e os olhos do pagé Rudá brilhavam de orgulho do seu amado neto mais velho de sua família .


" Daqui a duas horas , nobres guerreiros , estaremos face à face com o monstruoso Mapinguari, será uma luta sangrenta , num jogo em que não há empate, não há feridos , apenas mortos , ou ele , ou nós.


Agora vamos reavaliar nosso plano, definir a tocaia  e os ataques que matarão o Mapinguari, pois o nosso tocaiador  está  a três dias no encalço do Mapinguari, e já sabemos que ele está vindo para cá , então , entre três a quatro horas ele estará na fronteira de nossa tribo , vindo pelo o norte :


Estão todos prontos ?" Pergunta Tauan 


Todos gritam : "Sim ", uns batem no peito , outros fazem sons intraduziveis com a boca , pulam .


Nisso é a dada a voz a Guerreira da Espada da luz Tonha:


" Quero  agradecer a forma como fui recebida aqui , a minha amiga Yara que me acompanhou todos esses dias , e me ensinou sobre a cultura de vocês . 


Um ser humano faz o outro existir , e convivendo com vocês , me senti mais viva , mais humana , e isso nunca esquecerei.

A gratidão é a mais bela das atitudes humanas , por vocês não enfrentaria apenas o Mapinguari, mas todos os monstros do mundo!"


Tonha disse isso em êxtase, levanta sua adaga que cresce, vira uma espada e começa a brilhar, e ali está diante de todos a Guerreira da Espada de Luz , que havia sido profetizada por Tupã, a luz da espada da Tonha atinge a todos , brilha nos olhos daquele povo , está consumado .


Todo o recinto grita , os guerreiros erguem suas armas , o pagé Rudá faz um canto tribal , é chegada a hora de encarar o Mapinguari, face à face .


Então , sai Tonha e os doze guerreiros, vão de encontro a batalha mais épica que enfrentarão na vida , que retornar dela, ou morrer nela, será lembrado para sempre pelo o povo do Ventos do Norte .


Quando chegam no local combinado , depois de meia hora , chega o tocaiador , explica que o Mapinguari está vindo nessa direção , que não passará de meia hora , pois eles e seus auxiliares deixaram uma trilha de animais mortos para o Mapinguari seguir . Tauan o ouve atentamente, e depois manda que eles voltem para a tribo .

Todos vão para suas marcações , alguns estão em terra , outros estão aguardando nos falamos das árvores .


O tocaiador e seus auxiliares haviam aberto uma área entre o mato e a árvores , e bem no centro havia colocado o cadáver de uma parca, o último animal de uma trilha de cadáveres que trariam Mapinguari até a armadilha .


Estão todos apostos , parece até que a presença do Mapinguari silenciou toda a floresta , não se ouvia um canto de pássaro noturno , um cai de folha das árvores .

Eis que irrompe no silêncio da noite ,   grunhidos horripilantes,  que aos poucos vai aumentando , se aproximando , quando no meio do mato e no quebra dos galhos das árvores eis que surge : o Mapinguari.


Ele olha mais adiante , vê a parca no centro do vão ali da floresta , seu olho fica agitado , sente que tem seres ali ao derredor , mas sua fome, e sua estrutura corporal faz com que ele não  tema nada , não há predadores para ele. 

Segue em direção a parca , a pega quando a vai devorar, Tonha se ergue do meio do mato , ergue sua espada brilhante, que foi o aviso combinado para todos atacarem o Mapinguari.


O Mapinguari vê Tonha indo correndo em sua direção , arregala seu olho , para ele é apenas uma refeição a mais , também vai na direção de Tonha.

Nisso , os doze guerreiros liderados por Tauan saem com seus arcos e flechas , tochas de fogo, e até mesmo espadas , pois Tonha havia lhes ensinado a fazer e a lutar com espadas .


Quando Tonha alcança o Mapinguari, ele tenta lhe acertar  com uma braçada , que se acerta , lhe arrancaria a cabeça , ela se abaixa , o vento da braçada passa  atiça seus cabelos , na hora em que Tonha abaixa , ela aproveita seu movimento , e dar uma espadada em sua barriga , onde fica a sua boca , mas que Mapinguari se protege com os dentes fortes que tem na boca.


Nisso Tonha sai do alcance do Mapinguari, vem um guerreiro nortista com sua lança de fogo e fere a boca do Mapinguari, que urra de dor , seu urro espalhar-se pela a floresta 


Agora Tonha gira em torno do Mapinguari, seguida de três guerreiros , outros três fazem o mesmo em sentido contrário , a ideia e confundir os sentidos do Mapinguari, é muita informação para ele ter que analisar , então ele olha para um lado , olha para o outro , nessa brecha de confusão na mente do Mapinguari, os guerreiros restantes atacam com flechas , tochas de foco .


Tauan que havia subido em uma árvore , pula e crava sua espada no lombo do Mapinguari, que joga a cabeça para trás , urra, tenta pega a espada que esta o ferindo , Tauan pula , Mapinguari gira tentando pegar a todos .


 Ele lança sua língua e captura Tonha, e começa a trazer Tonha para dentro de sua boca , o problema é que a espada também ficou presa , seus braços foram amarrados pela a língua do Mapinguari. Tonha não tem tempo para sentir o odor horrível que exalar da língua do Mapinguari, só há tempo de pensar na própria sobrevivência , quando chega perto da boca do monstro que quer devora-la, como sua língua emanava um líquido liso , tipo uma goma, Tonha começou a puxar o braço em que ela segurava a espada, com grande esforço, ela puxa o braço , nisso ela vê a boca do Mapinguari se abrir , cheia de dentes pontiagudos ávidos por devora-la




Tonha grita de nojo , medo , fúria , levanta a espada , transpassa a língua do monstro , depois de vários ferimentos a língua perde a força e Tonha vai para o chão , ainda com a lingua a segurando , ela solta o outro braço e desfere um golpe que corta de vez a língua do Mapinguari. 


Nisso ela sai de perto para ganha mais espaço para executar melhor seus movimentos, mas os guerreiros não pararam de atacar o Mapinguari, que também ajudou a Tonha a ganhar tempo para se libertar da língua do monstro .


Depois de uma batalha intensa era chegada a hora do último ato , do golpe fatal , era preciso cegar o Mapinguari, que até então não havia sido possível , pois ele apesar imenso , era muito ágil e já havia desviado muitos ataques feito por todos .



Nesse momento estavam todos em volta do Mapinguari, Tonha está bem adiante, na sua frente, ela o feriu muito, os outros não era algo que o assustava realmente .



Tonha segura sua espada com força e fogo nos olhos , sai , corre de encontro com o Mapinguari.

 Quando ela vai se aproximando ,. Mapinguari ergue o braço , pretende lhe rasgar toda com suas pressas . Tonha segura o peso do braço com sua espada , que rasga um pouco a mão do monstro , mas ele a chuta com sua perna que ela voa , cai lá longe .


Nisso Tauan pega sua espada , seu escudo e vai com toda a sua fúria para cima do Mapinguari, e quando flechas e fogo voavam em direção ao Mapinguari.




Tauan vai na direção das pernas do Mapinguari, lhe fere a perna, e gira em torno de Mapinguari, Mapinguari tenta girar lhe acompanhando , fere a outra perna , Mapinguari tenta lhe dar uma braçada , mas erra, Mapinguari acerta um chute em Tauan , ele cai adiante ,. Mapinguari corre em sua direção , ergue os dois braços , e os soltam sobre o peito de Tauan , ele escarra sangue pela a boca , depois Mapinguari pisa sobre seu peito , Tauan perde os sentidos.


Isso aconteceu porque Tauan quebrou o acordo que não era para se aproximar tanto do Mapinguari, e que isso só poderia ser feito apenas pela a Tonha, a filha do Tupã.


Isso tudo parece lento, mas foi rápido , isso tudo aconteceu  enquanto Tonha se levantou da queda do chute que o Mapinguari havia lhe dado , até ela se levantar e ir de encontro a Mapinguari, foi quando Tauan fez sua jogada fora do jogo .


Tonha corta a perna do mostro que estava sobre os peitos de Tauan , dar um , dois , três golpes que o atinge profundamente a carne , ele tira o pé de cima de Tauan , e vai para cima de Tonha.


Dois guerreiros se aproximam e tiram Tauan dali, ele a princípio está desmaiado , é retirado da zona de perigo , mas não há como cuidar dele ali , isso só pode ser feito se eles sobreviverem ao Mapinguari, o tratamento só pode ser feito na aldeia.




Enquanto Tonha gira sua espada fazendo um furacão de luz no ar, pronta para atacar o Mapinguari, Tonha pergunta para um dos guerreiros que socorreu Tauan :


"Como está  Tauan?


Guerreiro: "O colocamos seu corpo  lugar protegido , para podemos leva-lo inteiro para a aldeia !"


"Como assim , seu corpo está protegido !?"


"Hoje é dia de festa no trono de Tupã , pois o grande guerreiro Tauan hoje faz parte do seu exército celestial !" 


Disse o guerreiro da forma mais natural  possível , de certa forma transmitindo contentamento pela a morte de Tauan 


Tonha molha os olhos , uma mescla de angústia e decepção própria , o que o povo do Ventos do Norte vai pensar dela, sabendo que ela não protegeu seu principal guerreiro, o herdeiro do pagé Rudá ?


Até ali ela nunca tinha visto uma pessoa jovem morrer , isso a deixou perplexa e furiosa com tudo , mas o Mapinguari estava ali na sua frente , alguém tinha que pagar por aquilo .


Ela saiu gritando com sua espada em punho , corre com lágrimas nos olhos e com a fúria do dragão no sangue, sai cortando as pernas do Mapinguari, ele tenta dar uma patada nela , quando suas garras, de baixo para cima , conseguem rasga o peito de Tonha , ele cai lá adiante , sangrando com os seus seios  expostos , ela não se importa : o medo da morte anula qualquer vergonha  , mesmo porque não havia tempo para nada a mais , a não ser matar o Mapinguari.




Os guerreiros ficaram perplexos , mas estavam com  receio de atacar o Mapinguari e acabar acertando Tonha , pois ela está a se movimentando muito rápido . Mas nesse momento ela estava no chão , com o peito aberto pelas as garras do Mapinguari, sangrando .


Tonha viu uma árvore meio arriada para dentro do campo de batalha , Mapinguari a segue , pois seu sangue lhe atiça a fome , precisa daquela carne .  

Tonha chega na árvore , vai correndo por seu troco , e salta na direção do Mapinguari, crava sua espada em seu olho , ele enlouquece , tira a espada do seu olho a joga longe , e sai correndo pela a floresta sem rumo , quebrando tudo .


Tonha pega sua espada e chama os guerreiros, diz que agora eles devem ataca-lo pouco à pouco , pois de gota em gota o balde transborda . Todos eles devem continuar atacando o Mapinguari em sua boca , no olho e na virilha .


Enquanto Mapinguari urrava de dor, cego , quebrando tudo sem rumo , Tonha e os guerreiros saíram atacando o Mapinguari, até o monstro Mapinguari tomba derrotado , morto no solo sagrado ra floresta : A filha de Tupã realizou a profecia .


Voltaram para a tribo , foi explicado todo o acontecimento, fizeram peregrinação para verem o Mapinguari, com o tempo ali virou um lugar de peregrinação não só para o povo do Ventos do Norte , quanto para todas as tribos e turistas , pois era o primeiro fóssil de Mapinguari encontrado .


Antes de voltarem para tribo , foram feitas roupas de folhas para Tonha . Tonha foi até a margem de um rio que passava ali próximo, naquela pela noite de Luar , se banha nas águas do rio , lavar o corpo , lavar a alma .


Acima de tudo Tonha não queria chorar na frente do s guerreiros, isso ali é sinal de fraqueza.


Mas na verdade quando está longe dos guerreiros, ela corre em direção ao rio chorando em soluços por causa da morte do Tauan.


Sim , ela , em certos momentos teve pavor do Mapinguari, mas a morte de Tauan era algo maior , profundo , era algo existencial, ela se sentia apenas como criança desprotegida diante da força do mundo e da vida. 


Ali ele tomou seu banho , diante de um lindo luar , ela naquelas águas lavou seu corpo , mas aquelas águas não poderiam lavar sua alma da dor que sentia .


Fizeram uma grande fogueira no meio da aldeia , onde queimaram o corpo de Tauan, conforme mando a tradição .


O pagé Rudá fez os curativos em Tonha , Yara a vestiu para a cerimônia de despedida dos mundo dos vivos de Tauan.



"Feliz sou eu que tive um filho guerreiro, um filho amigo , um filho parceiro .


Feliz sou eu que tive um filho que lutou pela a vida até a morte , que lutou pelo o seu povo .


Que virou lâmpada para guiar os homens pela a escuridão através do seu exemplo.


Tauan hoje habita à direita de Tupã , para todos o sempre , e em breve estaremos juntos novamente..."


Nossas crianças que acompanharam Tauan , são nossos símbolos da esperança de vermos nossas outras crianças crescerem  para continuar nossa jornada na floresta sagrada de Tupã . 

Bem aventurados são as crianças pois são as mais amadas de Tupã, em breve Tupã as enviarão de volta para nós!"


Acende a fogueira , enquanto todos cantam seus cânticos indígenas . Mais uma noite gloriosa para os Ventos do Norte.


Tonha dançou com as parentes e parentes das crianças mortas pelo o Mapinguari , com a mãe , Yara, irmãs,  sobrinhas de Tauan em torno da grande fogueira, e por trás delas havia o círculo formado pelo o pagé Rudá, irmãos , primos , amigos de Tauan. Mulheres dançavam para a esquerda , homens dançavam para a direita.

Tonha sentiu o poder daquela união , e ela realmente se sentiu integrada aquelas pessoas , entrou em transe e viveu o momento intensamente.


Estava Tonha mostrando força externa , mas que enquanto por dentro estava em cacos de vidro , ela não fazia parte daquela cultura , ela era de uma cultura aberta , onde os sentimentos são expressos de forma direta , na hora .


Mas uma coisa a consolou, o pagé Rudá chegou com Tonha,  lhe confessou uma coisa :




"Mulher olhos cor da vida , tenho que te dizer uma coisa sobre a profecia sobre a Mulher da Espada de Luz, no final profecia , diz que um dos maiores guerreiros que já existiu , amado de Tupã , também morreria naquela batalha . 


Aprenda uma coisa , mulher da espada da luz , para nós :


Um homem que têm fé não morre .

Apesar das belas palavras , e da força pela qual foram pronunciadas , havia um sentimento ressentido , uma angústia no peito do pagé Rudá, seu jovem e amado filho morreu antes dele , o que dói em qualquer pai (ou mãe) , em qualquer lugar do mundo .


"Então , meu filho era esse guerreiro da  profecia, muito obrigado . Quero quebrar um tradição da nossa tribo , se você me permitir , posso abraçar-la?"


Tonha sorriu timidamente, disse:


"Claro , no meu povo isso é normal !"


"Vou quebrar mais uma tradição da nossa tribo , você me inspirou a isso !"


"Mais uma?! Qual é?"


"Agora não teremos apenas guerreiros homens , mas mulheres guerreiras também !"




Tonha se sentiu tão feliz com isso , que entendeu toda aquela Odisseia e tragédia , olhando para a fogueira onde o corpo de Tauan virava cinzas , pensou:


"Então é isso ! Das cinzas de um ser um ser humano nascem outros seres humanos . 

Até mesmo eu me sinto renascida: a medida que entrava na floresta , eu mudava a floresta , e a floresta me mudava !" 





Tonha , personagem de Edson X 




Retribua o trabalho do escritor e compositor Edson X 


Pix

luminadox@gmail.com 

Nathalia Maquine Gonçalves 
















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