O QUADro E A FORÇa DESCONHEcida




Uma mulher era muito conhecida num



vilarejo pelo seu temperamento calmo e educação lapidada, não fazia distinções entre as pessoas, por isso era muito querida “por todos”. Houvesse crise ou não, a postura era a mesma. Na sua sala de estar havia um quadro pintado a óleo, que fora pintado por seu falecido marido, o qual ela “não dava e nem vendia”, que tinha o seu outrora belo e  jovem rosto, que exalava paixão pela a vida. 





Um dia dois homens invadiram sua casa enquanto ela levava suprimentos para uns desabrigados. Ao retornar e encontrar a porta encostada pensou que havia se esquecido de trancá-la. Mas na medida em que ela ia abrindo a porta, foi percebendo a ausência do quadro. Em seu rosto se acentuava a marca da perplexidade, e disse para si mesma: “Somente duas coisas não poderiam tomar de mim: minha vida e esse quadro. E quem fez isso mexeu com uma força desconhecida.”



A partir daí o povo do vilarejo viu uma mulher obcecada em recuperar aquele quadro. A premissa dela é que o quadro havia sido vendido a algum colecionador de obra de arte. Tendo em vista que muitos já a haviam visitado, para admirá-lo, ou para adquiri-lo. Ela estava tão concisa nessa ideia que se esquecia de cumprimentar ou de retribuir os cumprimentos, não por grosseria, o que não era típico dela, da sua educação, mas era que às vezes, ela nem os via ou os ouvia. Já não visitava mais os necessitados, e mandava outros entregarem seus mantimentos e agasalhos. Nas ruas já comentavam que ela ‘havia mudado’



Ela     pagou   ‘arapongas’,  detetives, prometeu recompensas, espalhou panfletos, acionou as autoridades. Certo dia uma mendiga de uma cidade vizinha, perambulando por uma rua do subúrbio, parou para comer, sentou em frente de um barraco e ouviu dois homens conversando: “E agora, não temos como sair com esse quadro daqui. Esse assunto está muito visado, todos comentam.” O que o outro respondeu: “Vamos esperar mais dois dias, depois nos livramos da prova do crime, não conseguimos vende-lo.” “Não. Vamos queimá-lo logo”, replicou o outro. A mendiga ouvindo isso e olhando por uma fresta, viu o quadro e não teve dúvida, era o quadro que ela tinha visto num panfleto do poste da praça pública, e que ela havia arrancado. Ela procurou o panfleto em sua bolsa rasgada e suja e encontrando-o, visou o endereço e foi até lá.




A mendiga conseguiu encontrar a dona



do quadro, conforme estava no panfleto, e informou-lhe o ocorrido. Está acionou as autoridades que prenderam os homens imediatamente. E a mendiga teve a vida mudada.




No dia do julgamento, a dona do quadro, já aliviada pela a recuperação do seu ‘bem-maior’, estava firme, impassível. Depois dos procedimentos, o juiz explanou à dona do quadro:




“Em nossa lei temos o termo meio-




perdão. Esse termo implica que, se a senhora optar por este, os réus irão para um reformatório, onde trabalharão, e o que produzirem será para a comunidade, e a noite eles dormem nas celas. Ou a senhora pode optar pela condenação propriamente dita, onde eles cumprirão a pena em regime fechado.”



Os que acompanhavam o julgamento, que a conheciam de longa data, pensavam que ela optaria pelo ‘meio-perdão’. Mas para surpresa de todos, ela solicitou o regime fechado e complementou:




“Se eles, para vocês, estão sendo julgados pela infração de furto. Eu os julgo por... tentativa de homicídio.”




 




 



1   – Muito cuidado ao mexer com forças




desconhecidas.




 




2   – há coisas que para nós têm valores




incalculáveis, e por elas nos mantemos de pé, vivos.


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