Uma crítica a metafísica do poder
Ciensofia ll, Edson Ecks, Amazon ebook, 2029, página 19
Foucault: É uma satisfação, Ecks, discutir a natureza do poder. Minha ênfase, como bem sabes, está em desmistificar sua origem, tirá-lo do castelo do Soberano e fazê-lo circular. O poder não é algo que se possui; é uma rede de relações que se exerce, que penetra o social. A disciplina, o saber, a vigilância — é a microfísica operando, moldando os corpos, produzindo indivíduos úteis e dóceis.
Ecks: (Assentindo lentamente) A rede e a capilaridade são inegáveis, Michel. Concordo que o poder não é um bem central a ser conquistado; ele é exercido em cada dobra do tecido social, como braços de um polvo. Mas vejo um perigo em sua tese. Ao enfatizar a dispersão, a sua microfísica parece, por vezes, minimizar o peso do núcleo, ou do que chamo de Poder Central (mal-utilizado).
Foucault: Mas o núcleo é apenas um efeito, não a causa. O Estado ou a figura do déspota são o ponto de cristalização de mecanismos que já operavam nas instituições. A força do poder reside justamente no seu anonimato, na sua capacidade de fazer com que os indivíduos, em suas pequenas relações, sejam centros de transmissão.
Ecks: E é aí que entra o "não-poder" como ferramenta de suporte. Uma tirania não se mantém apenas pela força bruta do centro, mas pelo apoio tácito, pela inação dos cidadãos motivados pelo medo, pela sobrevivência ou por um ideal equivocado. Se a rede não quisesse operar, o centro desmoronaria. O "não-poder" — a recusa em resistir ou a cumplicidade por conveniência — é o cimento da tirania.
Foucault: A microfísica é produtiva. Ela não só reprime; ela cria realidade, fabrica o indivíduo, a sexualidade, o saber. É um jogo de forças em constante movimento, que também abre espaços para a resistência. Onde há poder, há possibilidade de contrapoder.
Ecks: Eu ouso discordar veementemente de que ela equilibra ou é meramente produtiva. Meu temor é que ela seja mais propensa a devastar o social. Se a microfísica é tão eficiente em moldar o corpo e a mente, imagine quando ela se unifica em torno de um plano pernicioso vindo do centro. A eficiência da rede só amplifica a catástrofe do macro.
Foucault: Mas o plano pernicioso só é possível porque as tecnologias de poder já estavam em vigor, aceitas. Meu trabalho é mostrar como a verdade e o saber são produzidos por essas relações.
Ecks: O que me leva à dinâmica "de fora para dentro" e "de dentro para fora".
O poder de "fora para dentro" é o político que, para se eleger, abandona o que sabe ser correto e se submete à vontade popular volátil. Aqui, a periferia, o "micro" (o eleitor), corrompe o "macro" (o líder) pela força do desejo.
O poder "de dentro para fora" é a lei injusta e abusiva outorgada pelo centro que "todos" aceitam. O micro é subjugado pela imposição do macro.
Ambos os movimentos, se mal-utilizados, espalham o dano, provando que o poder, em suas relações do macro ao micro e do micro ao macro, sempre pesará sobre a sociedade.
Foucault: O poder é onipresente, isso é certo. Ele está em toda parte porque vem de toda parte. O indivíduo é o ponto de passagem, o efeito, o elemento que é ao mesmo tempo objeto e instrumento.
Ecks: E é essa onipresença que exige cautela. O poder (mal-utilizado) não conhece a vazio. Nenhuma ação ou inação é vã. Ele está do lado de dentro e de fora, centralizado e espalhado pelo o corpo-humano-social-ambiental. O grande desafio não é só mapear sua rede, mas entender como o indivíduo, movido pela busca do bem-estar ou pelo medo, torna-se o agente mais eficaz de sua própria sujeição.
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